RPG de fórum baseado em 'Vampire, The Masquerade'
 
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 Bloomsbury bistro

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Mestre do Jogo
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Mestre do Jogo

Origem : SP
Ocupação/função : RPG

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MensagemAssunto: Bloomsbury bistro   Bloomsbury bistro Icon_minitimeTer Fev 23, 2010 11:43 am

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O Bistrô Bloomsbury é um restaurante modesto mas de excelente qualidade localizado em um dos bairros mais refinados de Bennington. Lá fazem coquetéis, brunch, coffee break, almoços e jantares, almoço executivo e café da manhã. Os produtos são sempre frescos e a composição dos pratos também segue a estética ensinada pelos melhores chefs franceses.

O fato de esse bistrô servir apenas pratos vegetarianos não o torna menos freqüentado, inclusive pelos que não são vegetarianos, pois o sabor deles, a diversidade e criatividade em seu preparo acabam se mostrando muito mais atraentes, com a vantagem de serem, ainda, mais saudáveis.

Saladas multicores; burritos de feijão e zucchini; croquetes de quinoa e ervilhas; calzones de legumes, tofu e grãos exóticos; quiches de cenoura e cebola; chop suey vegetariano feito com tofu, chicória e broto de bambu; canelone de berinjela recheada com shitake e nozes; yakisoba de glúten e legumes; felafel; lazanha grega, preparada com alcachofra, berinjela e castanhas; lazanha de espinafre e várias outras massas; minestras; kosherie, que é um prato egípcio feito com lentilhas, arroz, semolina e cebola refogada; tofu ao pesto e tomates; ratatouille, de vegetais e ervas, e vários outros pratos compõem o sortido cardápio do bistrô.

As combinações são excêntricas e altamente palatáveis, sendo que o freguês pode ligar antes e pedir determinado prato não constante do cardápio, que será preparado, desde que vegetariano.

Sem nada animal, nem mesmo laticínios — sem derramamento de sangue.

OFF - Um caso que ficou histórico na comunidade vampírica de Bennington foi o de uma Ancillae Toreador que se interessou por uma ativista ambiental, Joan Bartlett, a qual levava uma vida muito saudável, era vegana, corria todos os dias nas trilhas de Glastenbury, aliás tinha inclusive abandonado todo o luxo de uma vida consumista — exceções para alguns almoços no Bistrô Bloomsbury — e habitava em uma tenda na montanha. Os piadistas maldosos diziam que mais um pouco e ela ficaria com a barba do Swami Ramdev (pré-mídia, já que depois que ele virou estrela pop começou a aparar a barba com desmazelo metodicamente calculado).

Joan era o tipo de pessoa que participava de protestos contra o uso de animais como cobaias em laboratórios e pesquisas científicas, já que com toda a tecnologia moderna isso não é mais necessário. Ela era, também, uma artista muito bem dotada, e expunha suas telas em uma galeria de arte à qual Julie Garceau se dirigia quase toda noite para admirá-las. Além disso Joan escrevia livros de ficção através dos quais tentava veicular didaticamente valores pacifistas e de harmonia com a Natureza, que Garceau lia e invejava, pois queria poder voltar a amar esses valores da mesma forma.

Garceau não podia acompanhar a vida de Joan durante o dia já que ela, como todo ambientalista adepto de movimentos pró-reforma de saúde autênticos, reservava suas noites ao sono, então não tinha uma vida noturna que permitisse a um vampiro menos sensível ter a chance de se interessar por ela. Mas Garceau acompanhava todo o trabalho de Joan e, a bem dizer, por conta dele apaixonou-se pela mortal.

A audiência de Garceau com Stratton, na qual pediu autorização para fazer de Joan sua Neófita, rendeu noites infames de risadas entre os Malkavianos, que, pela falta de consciência dos atos de Garceau, a nomearam depois disso Malkaviana honorária. Nem quiseram profetizar o óbvio. Joan, horrorizada com sua nova vida de morte, em que não podia mais ter contato com o Sol nem ouvir o canto dos passarinhos diurnos, a não ser os pios sorumbáticos das corujas; obrigada a se alimentar de sangue e, muitas vezes, a matar pessoas para isso; se destruiu atirando-se num incêndio. Seu corpo, é claro, nunca foi encontrado. Quando um vampiro é destruído, ele se transforma em pó. Não fica corpo para trás.

— Rötschreck é o nome que se dá ao pavor que o vampiro tem do fogo e do Sol. É um horror implacavelmente irracional e incontrolável. Só mesmo um Ventrue mais velho para conseguir manter a calma perto de uma fogueira muito forte ou ao vislumbrar os primeiros raios do Sol no amanhecer. O instinto é tão forte de se defender ou fugir, que é quase impossível a um Membro destruir-se pela forma como Joan o fez. Atirar-se na direção de um incêndio não é uma opção para um vampiro, porque todo o seu corpo e instintos o impelem na direção oposta. Na melhor das hipóteses, o vampiro ataca com fúria descomunal, "independentemente de elos pessoais ou afiliações", a pessoa que lhe esteja representando uma ameaça seja por brandir uma tocha, seja porque vai atear fogo em um lugar próximo.

Citando textualmente o Manual: "Os estímulos relativamente inócuos, ou aqueles que estiverem diretamente sob o controle do seu personagem-vampiro, dificilmente causam um Rötschreck. Por exemplo, um personagem que veja um cigarro aceso em uma boate ou uma lareira na casa de um aliado, pode ficar pouco à vontade, mas é pouco provável que sucumba ao Medo Vermelho. Porém, se aquele cigarro for apontado ameaçadoramente em sua direção, ou se as chamas da lareira se avivarem subitamente..."

Uma das explicações para o ato de Joan foi que por ela ser uma Toreador ainda muito nova, os sentimentos humanos estavam bem vivos em seu corpo morto — seu desgosto, frustração e tristeza foram tão intensos que venceram a Besta, no frenesi do Rötschreck.

— Sabe-se de comentários de Malkavianos no sentido de que Stratton sabia que Joan não agüentaria. Provavelmente, tornou-se possível entender melhor sua autorização para Garceau fazer de Joan sua Neófita graças à reunião no fim do ano passado, que ele fez com a comunidade vampírica de Bennington, em que reforçou a importância das Tradições da Camarilla tomando o caso de Garceau como exemplo próximo disso:

"É importante que o futuro Neófito seja muito bem escolhido. Nós constatamos pelo caso de Julie Garceau a precariedade de tomar o mero encantamento por um mortal como critério para formação de Linhagem.

"Alguns Membros, com o tempo, começam a se sentir sozinhos, e justamente aqueles de Clãs mais gregários, por paradoxal que isso pareça, sentem mais a solidão do que os membros de Clãs misantrópicos. Mas é importante que nossos Neófitos saibam que essa sensação de solidão desaparece com o decorrer do tempo. Se os primeiros impulsos para formar um Neófito só seu — uma risadinha acompanhou a colocação — forem vencidos, você verá que eles acabam minguando e que, então sim, nesse estado apaziguado o Membro se acha em condição de escolher melhor suas Crias e gerar uma Progênie mais capaz de resistir à Besta.

"O tempo é nossa ferramenta mais poderosa na escolha de Linhagem, e temos a eternidade à nossa frente, a não ser que coloquemos a auto-indulgência, a precipitação e os instintos em primeiro lugar, prestigiando, noite após noite, o descontrole.

"Estou ciente de que muitas vezes é difícil conhecer antes para Abraçar depois — novas risadas ascenderam do auditório, com algumas particularmente forçadas de Johnny Thunder — até porque alguns mortais não têm qualquer tipo de vida noturna, como era o caso de Joan Bartlett, que dormia e acordava com os pintassilgos. Eu sei que os risos agora foram de deboche, mas eu gostaria de ter o prazer de desgostá-los lembrando a todos que não somos muito diferentes, no sentido de que o primeiro raio do Sol nos põe em completo estado de torpor e de que só voltamos à ativa com o primeiro estrídulo de morcego anunciando a chegada definitiva da noite. (Alguns Nosferatus riram com a comparação "engenhosa" de Stratton.)

"Pois bem. (Neste ponto riu um Malkaviano, que precisou ser expulso do salão porque não parava mais de dar risada.) É possível a todos nós investigar determinada pessoa por meio dos seus contatos. Joan Bartlett, por exemplo, era amiga de uma garçonete da taverna do Velho Macauley. Na falta dessas informações, os Nosferatus estão à disposição para instruir quem precise delas."

Àquela altura do evento, os Nosferatus já se haviam retirado, por julgarem o teor soporífero do discurso de Stratton tão fatal quanto o advento do dia.

"Por fim, o último tópico que a Camarilla passou a nós, Príncipes, para o abordarmos junto aos nossos súditos esta noite. Após longo debate, a Camarilla decidiu que abrir ao potencial Neófito a chance de optar entre ser ou não ser Abraçado, não deve ser considerado infringência às leis da Máscara. Se o mortal não aceitar, deve ser trazido a mim para Ordenação de Esquecimento, a não ser, obviamente, que o próprio Membro possa ordená-lo ou houver outro Ventrue mais próximo, que pelas Tradições não poderá se negar de executar a tarefa. "

Johnny Thunder foi um que não pôde se conter depois do discurso e começou a reclamar em voz um tanto alta demais que a Camarilla está vindo com cada vez maior burocracia para cima da comunidade de Membros.

— Um Príncipe não é escolhido pela comunidade, mas pode ser rejeitado por ela. Stratton é de um modo geral bem visto, mas há quem diga que o seu maior talento é disfarçar de vantagens para a comunidade inteira os interesses da Cúpula, através da utilização oportunista de escarmentos e refinada demagogia.
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Julie Garceau
Ancillae
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Julie Garceau

Origem : França

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MensagemAssunto: Love sucks   Bloomsbury bistro Icon_minitimeSex Mar 05, 2010 7:24 pm

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Julie nunca poderia imaginar que mesmo como vampira haveria de querer ser outra coisa.

Como humana era uma eterna insatisfeita, sempre desejando algo mais. Quando seu Senhor, Arnaud Chevalier — um (pseudo) artista decadente de Geração fraca — propôs-lhe a imortalidade como vampira, ela ficou empolgada, achando que era isso que lhe faltava: grandes poderes e uma (não)vida rica em possibilidades em muito excedentes às dos mortais.

Mas ele não havia lhe contado tudo. Não havia contado que no mundo dos vampiros não existe coisa tal como 'liberdade, igualdade e fraternidade'... e que no meio cainita, ela - Cria de um vampiro de Geração inferior - seria a "lanterninha" nessa corrida massacrante chamada Jyhad. Que ela teria que estar olhando por sobre os ombros o tempo todo para se resguardar da traição de membros do próprio clã. Que sua Presença não seria páreo para a Dominação dos Ventrues e que ela estaria tão no controle da própria não-vida quanto estivera sobre sua vida: uma dona de casa no Haiti colonial, casada com um senhor de engenho, Gaston Garceau, que se viu trucidado pela fúria dos escravos na revolução de 1804.

Julie fora salva de ser abusada por seus judiados e vingativos servos graças a um bucaneiro de Tortuga (ex-artista falido), que ela conhecia de outrora, fornecedor de mercadoria contrabandeada para Gaston, mas que posteriormente se revelou um vampiro; então ela foi entender o que era ser Toreador e o quanto Chevalier escapava do estereótipo não tendo nenhum talento artístico em especial, mas somente uma paixão escravizante pela beleza. Pela beleza dela.

Mais uma vez amada por seus dotes físicos, com todo o sentimento de vazio que vem de carona a esse tipo de "amor", ela aceitou se vender em troca do "elixir da imortalidade", pensando que assim poderia ganhar atributos outros além da beleza para ser quista por algo mais.

Mas Chevalier era um zero à esquerda no clã, a única coisa que lhe dava passe livre nos corredores da Camarilla sendo sua fortuna. Ele não tinha especial masterização da Presença e outras Disciplinas do clã. Enquanto Julie conhecia apenas ele da Família de Cainitas, o achava o ser mais poderoso e glorioso em que já pusera os olhos. Depois, foi vendo que na Família ele não era nada demais.

Na primeira oportunidade que encontrou, ela se desvencilhou de seu Senhor sumindo na Europa, até ser reencontrada por ele quando os franceses tiveram que sair de território espanhol por conta da convenção de Sintra. Até então ela vivera em Tarragona como uma nobre francesa, fazendo espalhafato de sua nacionalidade por lhe trazer certos privilégios no território invadido, de modo que assumir outra máscara depois seria impossível. O próprio Príncipe da comunidade local, ao ratificar a convenção como válida também para a comunidade vampírica, lhe ensinou de um jeito amargo a desunião e competição que era a tônica do mundo vampírico.

Chevalier estava furioso quando a reencontrou. Chamou-a ingrata e outros nomes menos educados, judiou dela como se fosse mulher de Valadão... mostrando aí mais de pirata ordinário que de nobre com carta de saque pelos reis de França. Ela manejou fugir com a ajuda do seu fiel carniçal, Bertrand Lambert, que contratou uma assamita para dar conta de Chevalier. O irritado Senhor foi assim apanhado de surpresa, já que os Auspícios Toreadores não funcionam ante o Quietus assamita. Não os de um Toreador fraco como Chevalier. Se ele chegou ou não a escapar do confronto com a assamita, Julie não sabia. Importava que ela conseguira escapar.

De qualquer modo, encontrara em Sebastian Stratton um protetor encantador. Agora se sentia segura, se Chevalier houvesse mesmo sobrevivido não tinha permissão para entrar em Bennington, em todo caso.

Por outro lado, a comunidade regida por Stratton havia se tornado a prisão de Julie. Aí talvez se confirmasse a fama dele de ser o maior mascarado de todos os mascarados: ele conseguia manter seus súditos reféns do jeito mais imperceptível; e nem precisava usar a Dominação para isso.

Solitária e infeliz, desejando um preenchimento que a condição vampírica, apesar de todas as promessas, não lhe propiciara, ela se voltou a buscar o amor humano, seguindo tendências Toreadoras... Os vampiros eram máquinas frias de matar, e ela própria mergulhava cada vez mais nesta condição. Os seres humanos mais sensíveis podiam lhe proporcionar a redentora companhia que anelava. E então sua aventura com a mais sensível dos mortais que pudera conhecer naquela cidade, Joan Bartlett. Deveria ter esperado que Joan sentiria falta dessa sensibilidade ao ponto do desespero. Joan nunca amara Julie. Mas era justamente sua agonia em relação ao vazio de sua morta existência que fazia com que Julie se desdobrasse por ela com dedicação cada vez maior, porque se via em Joan, com a diferença de pensar que a neófita podia ter alguma "salvação" - Julie queria se realizar através da Cria, como qualquer mãe frustrada geralmente faz em relação à filha.

Contudo, a maior tenacidade de Joan em buscar alívio das próprias mazelas interiores era a promessa infalível de que Julie um dia a perderia. Os Auspícios da ancillae eram melhores que os de Chevalier. Julie teria preferido que estivessem errados...

Desde então ela tornou a experimentar como nunca dantes a tristeza, o desânimo, a depressão. A fim de exponenciar ao máximo sua amargura, aquela noite foi ao Bloomsbury bistro, para recordar as múltiplas ocasiões em que vinha flertar com Joan, e assim reviver o horror da perda, que a fazia, enfim, sentir alguma coisa.


[off] Campanha iniciada! queen [/off]
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Jean Jacques Sans-Cervell

Jean Jacques Sans-Cervell

Origem : Quebec, Canadá
Ocupação/função : jornalista

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MensagemAssunto: Re: Bloomsbury bistro   Bloomsbury bistro Icon_minitimeSab Mar 06, 2010 6:16 pm

"Le savant sait et s'enquiert, dit un proverbe Indien; mais l'ignorant ne sait pas même de quoi s'enquerir". ( J.J. Rousseau) [o sábio sabe e se questiona, diz um provérbio Indiano, mas o ignorante não sabe nem sobre o que se inquirir]

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Jean Jacques era um bom-achão. Repórter de uma televisãozinha furreca da nação francesa, ele conseguira, entre seus colegas de serviço (e debochadamente, diga-se de passagem) o título honorário de "o repórter mais revolucionário do jornal mais revolucionário". Alguns até o alcunhavam de "o Robespierre das entrevistas", mas este nome não se encaixava uniformemente a ele, uma vez que Jean era muito franzino e às vezes até tímido demais (e também nenhum pouco agressivo ou aguilhotinante como o outro), fato que ia de encontro a suas obrigações de repórter e criava silêncios intermináveis em algumas entrevistas, como naquela vez em que tentava entrevistar Georges Brassens, cantor francês, mas sem muito êxito:

- Vamos rapaz! Me diga! o que você quer que eu responda?

- É que eu queria saber...

- ...

- Bem , eu não sei como dizer. Pra mim, é muito difícil entrar nesses assuntos.

- Apenas entre. Mas com respeito, por favor – e Brassens esgargalhou até o som de suas risadas soltarem seus tímpanos pra fora.

- OH, Mon Dieu! OH, Mon Dieu! Je ne sais pas quoi faire! Seu Brassens, eu tinha uma pergunta que eu faria mas como ela já foi esquecida tive que arranjar outra pergunta que por acaso acabei de esquecer e agora já não sei o que faço, acho melhor eu ir embora que eu já nem sei por que estou aqui, OH mon Dieu! Je suis un fou! Eu não sei o que perguntar mas se eu paro de perguntar eles me demitem uh la la !

E após um desdobramento convulsivo de Jean Jacques, seguido de arrotos contínuos e feitos sempre com a melhor polidez de biquinho, seguidos também de minúsculas expressões estranhas como Parbleu! Morbleu! Avocates des enfers! finalmente uma pergunta saiu, colada ao arroto, diga-se com bastante passagem, suficiente para Brassens se enfezar:

-Oooooooooaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaoooa! Enfim, de quando em quando o senhor apara seu bigode?

O cara podia até arrotar, isto, sei lá, todo mundo faz. Contudo, perguntar sobre o bigode de Brassens, isso era inconcebível. Todos sabiam que Brassens odiava que fizessem brincadeirinhas sutis com o seu enorme "moustache", que mais parecia uma centopéia peluda do que propriamente um emaranhado de pêlos a dar um quê de maior masculinidade ao cantor. De fato, se isso fosse possível, a espécie estaria errada e o "La canne de Jeanne" faria mais sucesso com os plumosos pássaros ou quem sabe com as próprias centopéias fêmeas (isso lá existe?), apaixonadas que ficariam com aquele milhares de pés crespos por cima de um beiço invisível.

Após este acontecimento, a televisãozinha francesa, L' imonde, declarou que o salário de Jean era inversamente proporcional às despesas pecuniárias da empresa, esta que apesar de adorar as entrevistas de Jean, e que para além da raiva se divertia muito com a sem-noçãozice do repórter, sabia no entanto que os telespectadores não demonstravam risos nos índices de audiência divisíveis por zero, os quais eram produzidos ( e com que afinco!) por Jean Jacques.

Assim, o repórter decidiu ( frustrado com entrevistas que não estimulavam seu potencial jornalístico) que tomaria rumo novo em sua carreira e , a partir daí, os apelidos realmente começaram a surgir de verdade – principalmente o de "o furista furduncista". Nesse momento, ele começou a investir no inusitado, naquilo que ninguém queria guardar par si como matéria.

Inicialmente, começou a entrevistar as pessoas dos "Classificados". Buscava os porquês tão cativantes e as mazelas terríveis que faziam com que as pessoas quisessem vender suas bicicletas de 16 anos de uso, ou o carro enferrujado, o aparador de barbear o sovaco, o spray anti-pulgas, o creme dental vencido desde a última invasão de Napoleão, uma réplica do espartilho utilizado pela principal amante de Luís XIV e outras coisas, todas muito úteis, e com valores sentimentais tão delicados, que só uma vida sofrida, frágil e pobre poderia constituí-los como objetos de venda.

Depois disso, tentou entrevistar as propagandas intermitentes dos comerciais. Bem, isto não deu muito certo, pois todas as vezes que tomava fôlego e preparava uma pergunta, a propaganda acabava e ele já tinha que começar outra entrevista, uma vez que a propaganda seguinte era apressada, cheia de negócios, e não podia perder tempo com um furrequinho de bosta, afinal, ela tinha que alcançar o mundo, todas as pessoas, espalhar o benfazejo mel de seus produtos pelo universo, atingir as galáxias e perdurar para sempre como o rutilar perene de uma estrela eternal – todo este discurso traduzido na expressão simples, (en)fática e profundamente funda: "beba coca-cola".

Porém, apesar de suas tentativas infecundas, Jean não desistia nunca. Ele sabia que havia um lugar pra ele. O transcendente, ah o transcendente! Logo estarei lá, com o microfone na boca de Buda (?) ou de Ganesha ou de Tupã, ou de Júpiter, Zeus, ou do Tao, ou de Confúcio, ou de Descartes e quem sabe até de Brigitte Bardot! Mon Dieu, quel rêve! E se deleitava com visões transportantes, paraísos de colunas dóricas em que os jornalistas poderiam elaborar, dos acontecimentos banais, o livro de suas próprias confissões, tomos e tomos de suas vidinhas, estantes abarrotadas e cheias de fungos, redivivas agora, já na apurada e fenomenológica e ordenada estética transcendental. Não havia nada maior no mundo do que o depois do mundo e Jean sabia disso, sentia o cheiro, as visões de um futuro realmente belo, uma carreira alémnistica, apesar de saber que na materialidade de sua vida só encontrara a carreira alienística de um repórter não valorizado como deveria.

Puft.
Foi quando achou que o transcendental tinha caído em sua cabeça.. Ou melhor dizendo, em seus olhos. Ouvira falar de um tal de CHIAPPETTI LAMB e do nome que dera a um novo movimento artístico incompreendido e, portanto, genial: o trurrealismo.

Nunca em toda sua vida podia esperar algo parecido. Havia estudado os movimentos artísticos na faculdade. Às vezes se sentia um futurista-retrô, ou um dadaísta pós-moderno, não sabia bem se definir. Porém, trurrealismo, isto era o colapso de uma nova era, da arte sem mistificações, da arte comum, purista de avant-garde,o queijinho (camenberg) de nosso tempo. Não, nunca mais o jubileu dos críticos, o ter-prazer acadêmico de masturbar-se com o membro do outro, não, Mon Dieu!, C' est la clairté de notre vues, c' est l'épanouissement d' un siècle plus surrealiste, plus réel, c'est un nouveau siècle, étincelante, où, bien sûre, tout la vie sera possible vraiment! Naquele momento, Jean havia encontrado sua verdade essencial, não meramente cósmica, como dizem livros místicos, porém aquela que sabia que encontraria um dia, pela força do acaso ou simplesmente por achar tê-la encontrado.

Ele era um júbilo só, um regozijo total. Ele poderia ser livre agora, mais além do que podia imaginar. Conversou com seus colegas de trabalho, disse que estava procurando um senhor chamado Chiappetti Lamb. Arranjaram-lhe um contato. Por fim, ele conseguiu marcar uma entrevista... OH, je suis très heureux, uh là là!
O lugar do encontro seria o Bloomsbury bistro, lá na cidade de Bennington. Jean estava ansioso.

Viajou, pois. Na viagem fez uma amizade rápida com crianças ex-prostituídas que trabalhavam como escravas na parte de trás de um zoológico Chinês. Ele as entrevistou. No entanto, aquilo era banal demais. Estava a um passo de seu grande furo jornalístico, entraria no rol da fama dos repórteres, seria realmente "o revolucionário dos revolucionários!". Claro, isto sim. A menos que seu furo rompesse um saco sem fundo.

Adentrou o bistrô recheado de beldades, e por isso tímido, sem querer chamar muito a atenção, com discrição tropeçando em alguma reentrância invisível mas, ao que tudo indicava, existente no piso, ao que se esborrachou de encontro a uma garçonete, fazendo o conteúdo da bandeja virar por sobre uma belíssima loira de semblante melancólico a uma mesinha solitária, a qual ensebava um copo de vinho na mão que nunca era emborcado. Digamos que Jean ajudou-a a decidir bebericar uns goles, visto que o tranco entornou a taça sobre os carnudos lábios dela, entreabertos de surpresa - provavelmente por conta da formosura do recém-chegado. Mas o tanto de sorte deste podia ser apurada da parte que lhe coubera naquele harém de belas mulheres vermontianas: a garçonete, por cima da qual ele estava estatelado, era dona de um corpanzil que devia ter as mesmas medidas de altura, largura e profundidade - e ela não se alteava em menos de 1,90. Jean foi mantido no chão via tabefes desferidos pela pudorosa funcionária, tão generosos quanto as proporções da mesma, mas ele os recebeu submissamente pois dali de onde estava tinha uma vista privilegiada das pernas da loira triste...

off - Como prometido, um post envolvendo o Lamb e a Garceau. Não me decepcionem!
Quem quiser entrar na situação, esteja à vontade. É que nem coração de mãe.
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Chiappetti Lamb
Narrador
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Chiappetti Lamb

Origem : ítalo-americana
Ocupação/função : mecenas

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MensagemAssunto: Re: Bloomsbury bistro   Bloomsbury bistro Icon_minitimeSeg Mar 08, 2010 5:24 pm

Lamb tinha concordado se encontrar com o jornalista despirocado do L' imonde para falar dos seus projetos pouco práticos, mas admirados por sonhadores como Jean Jacques Sans-Cervell. Para esse fim, acabou cancelando um encontro com Elena de Ayala, dona do Books for Cooks, que continuamente recusava casar-se com ele mas nem por isso logrando fazê-lo desistir dela. A caminho do Bloomsbury bistro pensou que iria arrepender-se funestamente depois, por ter trocado Elena por Sans-Cervell, tinha certeza disso. Ou não. Ou sim. Talvez tivesse certeza.

Lá estava o rapaz tomando porrada de uma garçonete avantajada enquanto uma loiraça olhava com indignação para o próprio vestido Louis Vuitton lavado a vinho, ficando fácil para Lamb adivinhar o que se passara ali. Mas Jean era dos seus. Ele alegremente recebia a sova anestesiando-se com as endorfinas geradas pela contemplação das pernas da tal loiraça. Lamb a conhecia. Já a vira muitas vezes freqüentando as galerias e museus curatelados por ele. Uma amante da arte, deveria aprovar o jornalista pelo vanguardismo que imprimira ao tubinho clássico e igualmente enjoativo; ela merecia algo mais chamativo: já dissera o mestre André Breton, "A beleza há de ser CONVULSIVA, ou não será beleza."

Depois que a garçonete descontou em Jean toda a sua infelicidade possivelmente consigo mesma, o rapaz logo tomou prumo, alinhou a roupa e pediu licença para limpar o colo da loira; antes de receber resposta já estava prestando o serviço, mas sem usar nenhum pano ou guardanapo, valendo-se da mão nua e crua para esfregar a mancha sobre os seios da mulher. Novas bofetadas, estas certamente muito mais excitantes que a ira obesa da garçonete. Pelo menos para Lamb, aquilo seria o contato mais íntimo que poderia ter com tão linda mulher, tímido feito ele era, amedrontado de mulheres vistosas.

Jean agradeceu o tapa e foi sentar-se a uma mesa, afetando indiferença mas traindo o seu teatrinho pela facilidade com que tomava sustos, por exemplo a tosse seca de um qualquer atrás dele arrancou-lhe a reação de um "certo" jesuíta carola que lutasse contra a tuberculose vendo-se, não obstante, perseguido por um complô dos bacilos. Jean também se pôs a fingir o bebericamento de uma cerveja australiana tão forte quanto uma tequila, e nem se viam mais as bolhas na bebida, choca de tanto tempo conduzindo aquela simulação. Lamb quedara-se a assistir oculto, na cadeira em frente à de Jean. Este teimava também a fingir não ver o mecenas, aproveitando o tempo para fazer poses e empáfias.

Chiappetti pesquisara sobre esse rapaz. Não era difícil saber tudo sobre ele, já que era um exibicionista, embora não assumido, que para aparecer na mídia, em uma época de menor popularidade do seu desempenho jornalístico, apelara para publicar em seu nome uma ameaça ao prefeito de que, uma bela manhã, o mesmo acordaria não com uma cabeça de cavalo no travesseiro do lado, mas com chifres de cavalo no lugar do travesseiro, já que o prefeito gostava tanto de ficar procurando pêlo em ovo. "E os cílios do cavalo, preste bem atenção, serão pêlos de ovo". Jean acabou indo preso por causa disso, mas o advogado facilmente conseguiu alegar insanidade. Colou na hora.

O mecenas não sabia dizer se o rapaz bancava o maluco ou se ele era um maluco que bancava o maluco, e sua disposição em descobrir o segredo de tostines logrou fazer efeito para que colocasse Elena um pouco de fora dos pensamentos, que até então provocavam reações orgânicas embaraçosas. Especialmente embaraçosas em um encontro com Jean Jacques Sans-Cervell, que era capaz de atribuí-las, sem medo algum, ao impacto sexy de sua presença. Se fosse um arrogante, e é o que vamos descobrir.

Lamb sentou-se à mesa, emborcando a cerveja de Jean como se fosse suco de abacaxi. Também apagou o cigarro que o rapaz não fumava, limitando-se a criar fumacê em cima de um carrinho de bebê ao lado.

- Você não sabe a alegria que me proporciona ao me convidar para esta entrevista - Chiappetti foi falando. - Sabe por quê? Você realmente tem a pretensão de saber por que isso? Olhe bem para os meus olhos.

Infelizmente o impacto que Lamb queria causar foi prejudicado graças a um cisco que o pôs a lacrimejar e, ato-contínuo, a esfregar os olhos, então Jean não pôde atender ao repto lançado.

- Só você me conhece realmente, isso não é assustador? Isso não faz pesar sobre os seus ombros uma imensa responsabilidade? - as lágrimas de Chiappetti pareciam exceder o efeito do cisco, ou então era um tronco atravessado na córnea, quem sabe uma toupeira pequena, que pode surtir os mesmos efeitos arbóreos. - Pois eu vou agora lhe dissecar todas as minhas motivações. Você quer saber sobre minhas idéias futurísticas, certo? Foram idéias que eu tive um dia quando acordei e disse para mim mesmo, fingindo ser outra pessoa: "Vou ter idéias grandiosas para um futuro impensado". E as tive. Eu vi o futuro como jamais sonhado por mente humana ou mesmo de codorna. Inclusive que Heráclito já no quarto século antes de Cristo falava sobre essas idéias e na sua linguagem codificada — simplesmente porque os pensamentos dele não se continham nos significantes comuns — ele chamou essa visão que eu tive de "o eterno deja vu", já naquela época um homem de vocabulário moderno e popular para os dias de hoje. Você vê....
Chiappetti queria desabafar suas agruras e mudou de assunto, fingindo que apenas continuava o anterior; mas seus ares de continuação forçariam o interlocutor a procurar o link perdido e, no fim, nenhuma das partes sairia perdendo.

- Tudo aconteceu assim. Eu estava folheando o dicionário, muito por acaso, mas muito por acaso mesmo, muito, num momento de desespero, então eu precisava me distrair, o que quer dizer que o acaso não era tanto assim, você tem razão, e me deparei, dessa vez por efetivo acaso, com a palavra bate-cu. E apareceu como uma gíria carioca, você sabe como aparece nos dicionários, "Bras. RJ gír. V. tuim", coisa do tipo. Juro. E bate-cu é uma palavra que quer dizer "pancada com as mãos nas nádegas." Palavra que é. E fiquei me perguntando, seria uma metonímia? Parte pelo todo não é, porque o todo seria o traseiro inteiro. Quer dizer, é uma metonímia do tipo nádega pelo cu, e nada mais verdadeiro, nada mais absolutamente exato. Pelo menos do ponto de vista ontológico eu estou certo, ou não? E tentei usar essa classificação metonímica na redação de um concurso, e não passei. Por que não? Porque a única instituição que vai aceitar os seus valores como as regras da casa é uma de vanguarda. E aí você tem a prova real se está diante de uma instituição vanguardista ou se trata-se apenas de uma instituição que se finge de vanguardista.

Jean bravamente mantinha o blasé e nisto foi auxiliado por seu Ray-Ban, quando poderia arregalar os olhos por trás do insulfilm.

- Por outro lado, a vanguarda não vai aceitar que você troque bate-cu por xopotó-de-batata, por exemplo, porque essa troca aleatória não prova que você entendeu o assunto. A não ser que você explique que a troca aleatória comporta um significado não aleatório, que é a afirmação da liberdade do pensamento acima da razão utilitarista. Mas aí, você vai ter que explicar. Aí vai ser necessário o discurso, para a sua legitimação. O surrealismo é isso, é uma escola. O trurrealismo é uma atitude. Não usamos discursos, buscamos transgressões aleatórias a dedo, que mostrem em uma imagem o quanto nós sabemos. Tomemos, para exemplificar, a conversa do Chapeleiro com a Alice. Num primeiro momento, mas só nesse primeiro momento, ele não estava dizendo coisa com coisa, e isso é divertido, certo, veja lá aquele ensaio de Freud sobre o nonsense, em que ele tenta explicar por quais mecanismos psicocerebrinos o nonsense exerce tamanho impacto humorístico sobre as mentes mais inteligentes. Porque você não pode esperar que uma cena do Monty Python como aquela da dança do peixe seja seriamente interpretada como engraçada por parte do simples.